Envelhecer: uma reflexão sobre nós mesmos – leia na coluna de Ana Lúcia Américo

* Ana Lúcia Américo escreve a coluna ‘Dialogando sobre direitos humanos’, toda semana no Folha Morena

Imagem: reprodução/web

 

Caríssimo (a) leitor (a),

Com a aproximação da Semana Estadual da Pessoa Idosa, não poderíamos deixar de discutir essa temática tão relevante para nossa sociedade, já que é um período pelo qual, se não estamos vivenciando, com certeza iremos vivenciar, ou pelo menos torcemos para vivenciar.

Assim, dentro do contexto de direitos humanos, discorrer sobre envelhecimento é algo que nos remete a uma reflexão profícua sobre nós mesmos, como concebemos esta fase da nossa existência, quais os nossos sentimentos, medos, angustias e alegrias também.

Envelhecer significa olhar para o passado com os olhos do presente, ou vice-versa, é mudança de paradigmas, em que, infelizmente, grande parcela da sociedade não está preparada para aceitar, respeitar e cuidar dos seus idosos. Aliás, essa fragilidade também perpassa na ausência de aparatos governamentais, no que se refere aos cuidados com a pessoa idosa. Vivemos como se não fossemos envelhecer e pior, dificilmente estamos preparados para lidar com as limitações que a idade nos impõe.

Observa-se que a população mundial está envelhecendo em ritmo bastante surpreendente.

Dados das Nações Unidas revelam que a população de idade avançada é o grupo com maior crescimento em todo o mundo, com um aumento estimado em 10%, entre 1950 e 2025, em comparação com os 6% do grupo de pessoas de 60 anos de idade, e um pouco acima de 3% do conjunto da população.

Estes números demonstram uma mudança silenciosa, porém significativa, que requer do poder público e da sociedade novos olhares sobre o cotidiano da vida humana.

Em 1982, a Assembleia Mundial sobre o Envelhecimento aprovou o Plano de Ação Internacional de Viena sobre o Envelhecimento.

 Em 1991, a Assembleia Geral aprovou os Princípios das Nações Unidas em prol das Pessoas Idosas, estes princípios foram divididos em cinco secções: quais sejam:

  • Independência, que se refere ao direito de acesso à alimentação, à água, à habitação, ao vestuário e aos cuidados de saúde adequados. Direitos básicos a que se adicionam a oportunidade de um trabalho remunerado e o acesso à educação e à formação.

  • Participação, entende-se que a pessoa idosa precisa participar ativamente na formulação e aplicação das políticas que dizem respeito diretamente ao seu bem-estar e poder partilhar os seus conhecimentos e capacidades com as gerações mais jovens, bem como poder formar movimentos ou associações. Daí a importância da participação da sociedade no estímulo, criação e ampliação de conselhos de direito e de outros espaços que possibilitem a inclusão e participação da pessoa idosa.

  • Cuidados, ao afiançar que as pessoas idosas necessitam dos cuidados de seus familiares, ter acesso aos serviços de saúde e gozar os seus direitos humanos e liberdades fundamentais, quando residam em lares ou instituições onde lhes prestem cuidados ou tratamento.

  • Auto realização, no que se refere a pessoa idosa ter direitos de poder usufruir das oportunidades de desenvolver suas potencialidades, mediante o acesso aos recursos educativos, culturais, espirituais e recreativos da sociedade;

  • Dignidade, assegura que a pessoa idosa tem o direito a viver com dignidade e segurança, e libertas da exploração e maus tratos físicos ou mentais, ser tratadas dignamente, independentemente da idade, sexo, raça ou origem étnica, deficiência, situação econômica ou qualquer outra condição.

Diante de todas essas premissas, percebemos que a realidade no Brasil quase sempre é bem diferente. Temos nos deparado com familiares que, quando não cometem maus tratos, excluem o idoso do seio familiar. A pessoa idosa dificilmente é inserida nas rodas de conversas, nas reuniões com a consideração que merece. Quando identificamos a negligência com os idosos, frequentemente ouvimos a frase: “está colhendo o que plantou”, porém, se continuarmos nesta vertente de achar motivos e cobrar pelos cuidados que precisamos ter com nossos entes, continuaremos em um ciclo de troca, ou seja, somente tratarei meus pais e avós com respeito se eles tiverem feito o mesmo comigo.

Como explicar também os casos de pais e mães que dedicaram a vida à família, e na velhice são internados em casas de longa permanência, pagas ou não, abandonados pelos filhos e demais familiares? Onde fica a afetividade? Afeto não se compra, e por melhor que seja uma Instituição para idosos, o carinho e a proximidade da família são insubstituíveis. Há exceção para os idosos que realmente não possuem um familiar para acolhê-los.

É preciso despertar a família para um novo olhar, amadurecimento afetivo, colocarmo-nos no lugar do outro, entender que muitas atitudes dos idosos no passado revelam que era a maneira deles lidarem com a situação, pode não ter sido a melhor, mas entender a história de cada um dentro do contexto de vida, oportunidades, conhecimento e maturidade, é de extrema relevância.

Não é nossa intenção dizer que quando a senilidade chegar, nos tornaremos “santos”, mas voltamos a viver um período semelhante ao da infância, em que precisamos de cuidados e não de cobranças.

Assim, finalizo com as seguintes reflexões:

Como eu gostaria de ser tratada quando idosa? No decorrer da minha vida, como posso entender melhor as limitações que a idade impõe? É mister cobrar da pessoa idosa os atos praticados durante a juventude?

Grande abraço e até nosso próximo encontro!

 

“Quando olho um idoso, não vejo uma pessoa com vários anos, mas sim, vários anos, histórias, conhecimentos e conselhos, em uma única pessoa”.

Paulo Henrique Lima

 

*Possui graduação em Serviço Social pela Universidade Católica Dom Bosco (1999) e mestrado em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional pela Universidade Anhanguera Uniderp (2012). Atualmente atuando como Superintendente da Politica de Direitos Humanos da Secretaria de Estado de Direitos Humanos, Assistência Social e Trabalho-SEDHAST. Exercendo o mandato de 2015/2016 como Presidente do Conselho Estadual da Pessoa HUmana e Coordenadora do Comitê Estadual de Erradicação de Documentação Básica e Subregistro (2015-2017).